Mais uma vez, Natal

DOM JOSÉ FREI FALCÃO*
Arcebispo emérito de Brasília

domfreifalcaoO que é o Natal para os discípulos de Jesus? É o acontecimento decisivo da história da salvação. O filho de Deus, o Verbo, “se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Imagem do Deus invisível, resplendor de sua glória, efígie de sua substância, como escreve São Paulo aos colossenses (1,15).
E veio a esta Terra, não em palácio real ou em residência suntuosa, mas num estábulo. Nasceu na extrema pobreza, embora fosse o criador do mundo e o senhor da história. Porque no coração de Deus há uma preferência pelos pobres, tanto assim que “se fez pobre” (2 Cor 8,9 ) em seu filho, o qual viveu nesta Terra com os humildes e pobres, com os pecadores.

Seu nascimento não foi comunicado aos governantes de seu povo e às pessoas importantes, mas a humildes pastores. “Eis que vos anuncio uma grande alegria, que será de todo um povo. Nasceu-vos hoje um Salvador, que é o Cristo-Senhor, na cidade de Davi” (Lc 2,10-11).
E uma luz resplandecente iluminou o campo de pastagem ao anunciarem os mensageiros de Deus o grande acontecimento. Porque, Ele era “a luz verdadeira que ilumina todo homem” (Jo 1,8 ). Luz que é o horizonte da razão humana na busca da verdade, do bem e do belo. Luz para os que descobrem a presença desta criança nos moradores de rua, nos pobres das favelas, nas samaritanas, nos pecadores.

Natal não é um acontecimento do passado, mas um fato do presente. A criança que nasceu em Belém renasce hoje na mente e no coração não só dos que creem nele como o Salvador, mas em todos os que professam a fé em Deus e, até mesmo, nos que vivem com dignidade, mas sem uma fé explícita no criador. Junto ao Pai não deixa de sorrir até mesmo para aqueles que o desprezam ou o insultam. Porque veio a esta Terra como a misericórdia infinita de Deus.
Não é de admirar que pensadores e escritores, sem vivência cristã, até mesmo ateus ou gnósticos, por suas raízes culturais cristãs, tenham escrito belas palavras sobre a mãe deste menino.
Assim, o pai do existencialismo ateu, o filósofo francês Jean-Paul Sartre, na peça teatral Bariona, escrita, em 1940, em prisão alemã, ao pedido de seus colegas prisioneiros:

“A virgem está pálida e contempla o menino. O que dizer daquela expressão de perplexidade que foi vista uma única vez no semblante humano? Cristo é o seu filho, a carne de sua carne, o fruto do seu ventre. Ela o carregou por nove meses, vai lhe oferecer o seio e o seu leite se torna sangue de Deus.

Em alguns momentos a tentação é tão forte que ela esquece que é o filho de Deus. Aperta-o em seus braços e sussurra: Meu Filho! Mas em outros momentos, imóvel pensa: Deus está ali. E é tomada de uma admiração religiosa por esse Deus mudo, por esse menino, que de uma certa forma causa medo…

Mas, creio ter havido outros momentos, rápidos e fugazes, nos quais ela sente que o Cristo é o seu filho, a sua criança, e que é Deus. Ela o contempla e pensa: este Deus é o meu filho. Esta carne é minha carne. É feito de mim, tem os meus olhos! E a forma de sua boca é semelhante à minha boca, Ele se parece comigo. É Deus e se parece comigo.

Nenhuma mulher teve a sorte de ter seu Deus só para si. Um Deus menino diante do qual se pode abraçar e cobrir de beijos. Um Deus quente, que sorri, que respira. Um Deus que está vivo e se pode tocar!”

O grande escritor de língua portuguesa Fernando Pessoa, gnóstico, escreveu a poesia-oração Ave Maria, da qual destacamos alguns versos:

“Ave Maria, tão pura,
Virgem nunca maculada,
ouvi a prece tirada
no meu peito da amargura.
Vós que sois cheia de graça
escutai minha oração,
conduzi-me pela mão
por esta vida que passa.
O Senhor, que é vosso Filho,
que seja sempre conosco,
assim como é convosco
eternamente seu brilho.
Bendita sois vós, Maria,
entre as mulheres da Terra
e voss’alma só encerra
doce imagem d’alegria.
Mais radiante do que a luz
e bendito, oh Santa Mãe,
é o fruto que provém
do vosso ventre Jesus!
Ditosa Santa Maria,
vós que sois a mãe de Deus
e que morais lá nos céus,
orai por nós cada dia”.
Para todos os leitores deste jornal, um santo e feliz Natal!
*texto publicado em O Imparcial, nesta quarta-feira (25).

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